Militares bissau-guineenses respondem a JLo: “Quem governa sob a sombra da fraude não pode apontar o dedo a crises de legitimidade alheia”
A Junta Militar que governa a Guiné-Bissau respondeu, no fim-de-semana, às críticas de João Lourenço, proferidas durante a 39.ª Cimeira da União Africana (UA), considerando que o Presidente angolano não tem legitimidade para dar lições de moral e democracia ao seu país, enquanto Angola não tiver realizado eleições não fraudulentas.
Num comunicado de imprensa, lido pelo porta-voz da Junta Militar, Fernando Vaz, os militares bissau-guineenses exigiram respeito a Guiné-Bissau e criticaram o que chamam de “os paradoxos de João Lourenço” na declaração feita na sede da UA, em Adis Abeba, na Etiópia.
Os militares golpistas acusam o Presidente angolano de esquecer, “por conveniência, que eleições fraudulentas e processos viciados constituem por si só golpes constitucionais”.
“Quem governa sob a sombra da fraude não pode apontar o dedo a crises de legitimidade alheia. A Guiné-Bissau exige respeito”, declarou Fernando Vaz, atirando-se contra a João Lourenço e a José Maria Neves — Presidente de Cabo Verde, que, na ocasião, também criticou a golpe de Estado na nação irmã.
“Antes de olharem para Bissau, que esses líderes olhem para os seus próprios problemas internos. Cabo Verde deve preocupar-se em resolver as suas crescentes tensões sociais e o desgaste das suas próprias instituições. Angola deve primeiro realizar eleições que não suscitem dúvidas sobre a sua veracidade”, atirou o porta-voz da Junta Militar.
“Em Angola, o mundo assistiu a processos eleitorais onde a transparência foi sacrificada no altar da manutenção do poder. Um golpe de Estado foi feito de urnas manipuladas e é, se possível, mais pernicioso que o militar, pois é um golpe sem rosto. Silencia a oposição, amordaça as instituições e mantém uma fachada democrática para consumo externo”, acrescentou Fernando Vaz.
Junta Militar acusa Cabo Verde de traição
Quanto ao Presidente de Cabo Verde, a Junta Militar da Guiné-Bissau acusa-o de possuir uma memória curta e de incoerência, lembrando o início da crise, em Novembro de 2025, quando José Maria Neves “apressou-se a lavar as mãos, distanciando-se da mediação directa e entregando o destino de uma nação irmã exclusivamente às mãos da CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental]”.
“Na altura, escudou-se em razões históricas para evitar a responsabilidade. Hoje, tenta ressurgir com o discurso de preocupação pedagógica e sofrendo uma amnésia selectiva para legitimar a sua interferência externa e a percepção de hipocrisia nas relações diplomáticas regionais, esquecendo-se que a certidão de nascimento de Cabo Verde foi escrita com sangue derramado nas matas da Guiné-Bissau”, apontou Fernando Vaz.
Para a Junta Militar guineense, “a história não se apaga com comunicados diplomáticos, nem se esconde sob tapetes da União Africana”, acusando José Maria Neves de estar a trair a própria génese da sua nação.
“Convém refrescar a memória a [José Maria] Neves que foi o movimento de ruptura, um acto de força contra o sistema colonial, o que hoje muitos chamariam de golpe ou insurreição, que permitiu o fim do colonialismo e o ressurgimento de Cabo Verde como Estado soberano”, afirmou o porta-voz do Alto Comando Militar da Guiné-Bissau, que governa actualmente o país.