Líbia. Trípoli abalada por pesados combates entre milícias

Uma noite de confrontos entre milícias no coração de um distrito residencial da capital líbia, Trípoli, suscitou receios, no sábado, de uma escalada de violência no país já movido pelo conflito.

O intenso combate que eclodiu no final de sexta-feira entre dois grupos armados que apoiavam os primeiros-ministros rivais deixou pelo menos uma pessoa morta e causou danos materiais significativos, disse à Agence France Presse (AFP) uma fonte de segurança.

Tiroteios e explosões espalharam-se por Trípoli durante os combates, descritos por um residente como possivelmente os “mais pesados” vistos na cidade durante mais de uma década.

A missão das Nações Unidas na Líbia expressou preocupação, no sábado, sobre os confrontos.

É a mais recente onda de violência a abalar o país após uma tentativa falhada, no mês passado, do ex-ministro do Interior Fathi Bashagha — votado como primeiro-ministro pelo Parlamento — de tomar o poder do primeiro-ministro interino Abdulhamid Dbeibah.

Imagens veiculadas pelos media líbios mostraram civis, incluindo mulheres a empurrar crianças em carrinhos de bebé, a fugir em ruas movimentadas numa área edificada depois de serem apanhadas no fogo cruzado.

Combates

Os combates eclodiram no bairro de Souk Talat e colocaram duas milícias (contra e pró-governo) uma contra a outra, disse a fonte de segurança.

A fonte, que falou sob a condição de anonimato, explicou o ocorrido em meio a tensões, após a detenção de combatentes de ambas as milícias.

“Os confrontos pararam após mediação de uma força militar neutra (Brigada 444), que colocou uma série dos seus veículos blindados” na zona do combate, acrescentou.

Um vídeo divulgado durante a noite mostrou Dbeibah a ordenar aos membros da força que interviessem a proteger a área e proteger os civis.

Neste sábado, a normalidade tinha sido restaurada em grande parte na área, mas a violência provocou uma nova indignação entre os residentes.

“Esta situação é inaceitável e é insuportável que os civis sejam apanhados numa emboscada que coloca as suas vidas em risco devido ao acerto de contas pelas milícias criminosas”, disse à AFP a estudante Maha Mokhtar, de 25 anos.

“Qual é a culpa destas famílias que fugiram das suas casas?”, acrescentou ela.

Confrontos “mais pesados” desde 2011

Rida Said, outro residente, disse que tinha visto os combates da sua própria varanda, descrevendo os confrontos como “talvez os mais pesados da nossa área desde 2011”.

“Era evidente que estavam a disparar aleatoriamente contra áreas civis com muitos edifícios”, disse um cidadão de 67 anos.

“Fui atingido pelo pânico e temi pelos meus filhos, que saíam com os seus amigos como fazem todos os fins-de-semana… mas felizmente regressaram em segurança”.

O último combate atraiu a condenação internacional, incluindo de Stephanie Williams, a conselheira especial do secretário-geral das Nações Unidas para a Líbia.

“Já chega! Apelo à calma absoluta e à protecção dos civis”, escreveu ela na rede social Twitter, neste sábado, juntamente com uma declaração apelando às partes para que exerçam “a máxima contenção”.

O enviado da União Europeia à Líbia, José Sabadell, condenou os combates como “chocantes e vergonhosos”.

“Foram disparadas armas contra um parque onde as crianças correm e brincam. Os espaços públicos em Trípoli pertencem a famílias, não a homens armados”, escreveu no Twitter.

No mês passado, Bashagha tentou tomar o poder em Trípoli, desencadeando confrontos entre grupos armados que o apoiavam e os que apoiavam o primeiro-ministro interino Abdulhamid Dbeibah.

Foi o último episódio de lutas políticas internas para preencher o vácuo de poder deixado após a queda de líder de longa data Muammar Kadhafi, em 2011.

Dbeibah foi nomeado no âmbito de um conturbado processo de paz liderado pela ONU no início do ano passado para liderar uma transição para eleições marcadas para dezembro de 2021, mas a votação foi adiada indefinidamente.

Em fevereiro, o Parlamento nomeou Bashagha para assumir o poder, argumentando que o mandato de Dbeibah tinha terminado.

Mas Dbeibah insistiu que só iria ceder o poder a uma administração eleita.

*Texto AFP

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