Sindicato dos Médicos acusa governo de inverter de forma intencional prioridades no sector da Saúde para sobrefacturar despesas
O Sindicato Nacional dos Médicos de Angola (SINMEA) acusou o governo angolano de estar a inverter, de forma intencional, as prioridades no sector da saúde, ao optar por construir hospitais de nível terciário em detrimento de unidades primárias para “sobrefacturar” nas despesas.
“O quadro da saúde no país é extremamente preocupante, se tivermos em conta que, infelizmente, o governo inverte as prioridades. Quando deveria investir a nível da assistência primária, investe no sistema terciário”, afirmou Adriano Manuel, no quadro das celebrações do Dia Mundial da Saúde, assinalado nesta terça-feira, 7.
O sindicalista acusou o governo angolano de inverteu, “de forma tendenciosa”, as prioridades no sector, com a construção de hospitais de nível terciário em detrimento de unidades primárias para “sobrefacturar” nas despesas.
O médico questionou as razões da aposta em grandes infra-estruturas hospitalares, quando o “governo tem dificuldades em manter estes hospitais por falta de dinheiro, sobretudo a sua manutenção que está muito cara”.
Para o sindicalista, o facto de as grandes infra-estruturas absorverem muito dinheiro dá lugar à “lavagem de dinheiro”, ligando a decisão a “pessoas próximas ao gabinete do Presidente [da República]”, que, na sua opinião, sugerem este tipo de investimento mesmo tendo “plena consciência de que estes investimentos não são os mais ideais”.
De acordo com o médico, a situação da saúde no país “é extremamente preocupante” e a actuação do governo, ao inverter as prioridades do sector, tem levado ao agravamento de doenças preveníveis, a exemplo da malária, febre tifóide dengue, chikungunya e tuberculose.
“Vamos encontrar o recrudescer destas doenças, o que tem forte implicância do ponto de vista de custos para o país”, lamentou.
Segundo Adriano Manuel, o país continua a observar um elevado índice de doentes com tuberculose e malnutrição crónica, sobretudo em crianças menores de cinco anos — um quadro que se terá agravado desde que o actual Presidente da República assumiu o poder.
Quando João Lourenço assumiu o poder, em 2017, o país tinha entre 35% e 38% de crianças com malnutrição crónica e hoje “estamos com uma média entre 40% e 45% com crianças com menos de cinco anos com malnutrição crónica”.
Para o médico pediatra, tal situação tem forte implicação do ponto de vista da assistência médica, mas “a grande implicância mesmo é no desenvolvimento da saúde [destas crianças], porque o cérebro humano se desenvolve com boa alimentação”.
“E estas crianças, com pouca ou sem alimentação, vão ter o coeficiente de inteligência extremamente reduzido e o desenvolvimento do país [está] em perigo nos próximos 30 anos. Daí a importância de se trabalhar para melhorar a assistência primária de saúde”, insistiu.
O Presidente João Lourenço autorizou despesas no valor de 4,5 mil milhões de kwanzas para a aquisição de medicamentos destinados ao tratamento das diabetes, hipertensão e anemia falciforme, de acordo com um decreto presidencial divulgado em Março deste ano.
Adriano Manuel assinalou a relevância da medida presidencial, “porque os hospitais de uma forma geral não têm os referidos fármacos”, observando, no entanto, que o problema da saúde em Angola reside na assistência primária.
“O grande problema é a prevenção e é a nível da assistência primária que vamos identificar os grandes problemas relacionados com a hipertensão arterial, diabetes e mesmo a insuficiência renal (…)”, reiterou.