Moçambique. O que mudaria sem as tropas do Ruanda de Cabo Delgado?
Alguns residentes de Cabo Delgado consideram que o período de permanência já foi suficiente e que uma eventual saída das tropas do Ruanda não seria negativa.
“Era previsível e o governo devia estar preparado para poder fazer frente a esta questão ao seu nível. Um apoio deste tipo não era para ficar eternizado”, comenta o político Santos Abílio.
Ainda assim, o governo moçambicano tem investido pouco nas Forças de Defesa e Segurança, aponta Abílio, apesar do país ter ao seu dispor recursos que permitiram equipar o Exército “até ao nível do próprio Ruanda”.
“Mas o que está a acontecer é que o Governo de hoje não tem agenda com as nossas forças de defesa, não tem agenda com a educação, não tem agenda com a saúde, não tem agenda com nada”, acrescenta.
“Não vamos ficar seguros”
É também por isso que outros cidadãos defendem que a presença ruandesa continua a ser crucial, face à persistência dos ataques terroristas.
Na visão de Maulana Assumane, por exemplo, os grupos armados temem sobretudo as Forças de Defesa do Ruanda e uma eventual retirada poderá levar à deterioração do clima de segurança.
“Para mim, os ruandeses têm de ficar. Quando estão lá em Mocímboa da Praia e em Palma, sentimos que temos defesa. [Mas se] regressarem ao seu país, vamos ficar de qualquer maneira, sem defesa”, afirma.
Esta posição é também partilhada pelo ativista social Aly Caetano, que entende que Moçambique ainda não está preparado para garantir a segurança da região depois de os militares ruandeses regressarem a Kigali.
“Seria prematura a saída do Ruanda”, diz Caetano. “Em primeiro lugar, ainda há défices logísticos das nossas tropas para combater o terrorismo. Por outro lado, está a decorrer o processo de formação, que não penso que aconteça durante dois ou três anos, para ter habilidades suficientes para combater o terrorismo.”
Além disso, segundo o activista, “ainda é a tropa do Ruanda que gera mais simpatia e transmite maior segurança às comunidades.”
Apoio necessário
Após a publicação do anúncio sobre a pretensão de saída do Ruanda de Cabo Delgado, houve vários comentários de celebração nas redes sociais e em diferentes círculos de conversa.
Contudo, Aly Caetano, ativista bastante inserido nas comunidades rurais de Cabo Delgado, acredita que a maior parte dos que celebram o eventual abandono do Ruanda não conhece a realidade do teatro de operações.
“Entendo que alguma parte da sociedade esteja a festejar o facto da possível saída dos ruandeses. Mas, em termos práticos, quem tem acesso às comunidades e trabalha em Cabo Delgado sabe que a insegurança continua”, refere Caetano.