França. Mesmo com maioria absoluta, Macron terá de “negociar” nos próximos cinco anos

O cenário de uma maioria absoluta só do partido do Presidente francês nas legislativas é impossível, mas a coligação feita com os centristas do Modem e a direita do ex-primeiro-ministro Édouard Philippe ainda pode alcançar mais de 289 eleitos no dia 19 de Junho.

“Parece completamente excluída a hipótese do partido do Presidente de ter a maioria absoluta sozinho, ao contrário do que se passou em 2017. Mas a coligação do Presidente, que inclui o Modem, Horizontes e Agir ainda pode ter eventualmente essa maioria absoluta, o que significa que Emmanuel Macron terá de negociar nos próximos cinco anos com François Bayrou e Edouard Philippe”, afirmou Jean Garrigues, historiador político, em declarações à Agência Lusa.

A coligação Ensemble!, do Presidente Emmanuel Macron, venceu por 21 mil votos a primeira volta das eleições legislativas, face à coligação de esquerda Nova União Popular Ecologista e Social (Nupes). De forma a ter a maioria absoluta a coligação de Macron precisa de 289 lugares na Assembleia Nacional e caso não os tenha, terá de passar os próximos cinco anos a negociar à esquerda e à direita.

“Caso não consiga [a maioria absoluta], esta coligação vai ter de procurar em permanência alianças pontuais com a direita ou com a esquerda, mais com os socialistas ou os ecologistas. É importante lembrar que a Nupes não será representada de forma homogénea na Assembleia Nacional e no dia 20 de Junho haverá vários grupos diferentes à esquerda”, lembrou o historiador.

Para Jean Garrigues, esta foi uma primeira volta “sem surpresas” e mesmo a redução de votos na força política do Presidente face a 2017 já era prevista.

“Houve uma erosão devido aos cinco anos de poder de Emmanuel Macron, mas isso já era visível na campanha presidencial. Os franceses querem reequilibrar a Assembleia face ao Presidente da República, ou seja, um primeiro-ministro que não seja da mesma família política do Presidente”, indicou o académico.

Para este historiador político que preside ao Comité de História Parlamentar e Política (CHPP), a própria abstenção, que bateu o recorde da primeira volta na V República, também não foi surpreendente e acaba por favorecer Emmanuel Macron.

“O eleitorado de Emmanuel Macron é o menos abstencionista, portanto parece que tem uma capacidade menor de mobilizar para a segunda volta, enquanto que o eleitorado de Mélenchon é muito abstencionista, mas nada garante que eles se vão mobilizar para votar no dia 19 de junho”, explicou, acrescentando que Emmanuel Macron deverá continuar “discreto” esta semana já que a abstenção lhe é favorável.

Segundo a análise de vários gabinetes de sondagens, foi o eleitorado com mais de 35 anos que foi mais às urnas, preferindo os candidatos de Emmanuel Macron, enquanto os jovens se mobilizaram menos, estima-se mesmo que cerca de 70% dos jovens entre os 18 e os 35 anos não foram votar, e esse é o eleitorado de Jean-Luc Mélenchon.

É no dia 19 de Junho que tudo se vai decidir. Há 272 duelos entre candidatos do Presidente e a Nupes, 113 entre a União Nacional e a coligação do Presidente, 61 entre a Nupes e a União Nacional, com Os Republicanos, de direita, a defrontarem a Nupes em 25 circunscrições, a União Nacional em 24 e a coligação do Presidente em 18.

“Tudo se vai jogar na segunda volta. A segunda volta é interessante para os partidos que podem fazer alianças, com a coligação do Presidente ou a Nupes, mas para um partido isolado como a União Nacional, é uma grande dificuldade”, declarou o historiador.

Assim, mesmo se foi a terceira força política da noite com quase 19% dos votos, a União Nacional deverá perder gás no próximo domingo, com o objectivo de Le Pen a ser eleger pelo menos 15 deputados que lhe permitam formar um grupo político na Assembleia, algo que não conseguiu em 2017.

Uma Assembleia Nacional com geometria variável é algo que agrada a Jean Garrigues, considerando que essa é uma configuração política mais interessante para a França.

“Vamos ter uma Assembleia em que haverá uma maioria dividida e também uma oposição dividida, ou seja, uma configuração muito diferente do que temos hoje e que, se calhar, vai voltar a ter um espírito de verdadeira deliberação e contrapoder que não temos neste momento”, concluiu.

Na primeira volta das eleições francesas foram eleitos cinco deputados, sendo que 572 circunscrições vão ser decididas no próximo domingo, 19 de Junho, na segunda volta das eleições legislativas.

*Texto Lusa

Nok Nogueira

Nok Nogueira

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