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Etiópia. Rebeldes do Tigray entregam armas ao exército do país, mas tropas da Eritreia preocupam

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As tropas do Tigray começaram a entregar as suas armas ao exército etíope em mais uma etapa do acordo de paz firmado em Novembro, depois de um sangrento conflito que durou dois anos e, estima-se, causou a morte de mais de 500 mil pessoas.

A guerra, que começou antes da invasão à Ucrânia, mas não chamou tanta atenção do Ocidente, chegou a ser considerada um dos piores desastres humanitários recentes no mundo. Os principais autores do conflito são acusados de crimes contra a humanidade, incluindo violência sexual.

Apesar dos avanços visíveis nos últimos dois meses, os sentimentos entre os etíopes sobre o acordo de paz vão da esperança à desconfiança.

A guerra acabou envolvendo também a Eritreia, que não participou das conversas lideradas pela União Africana sobre o fim das hostilidades. O país vizinho cruzou a fronteira para apoiar as tropas federais etíopes, quando o conflito estava em andamento e não saiu totalmente quando ele oficialmente acabou.

O envolvimento “pesado” da Eritreia na violência no norte da Etiópia ainda preocupa a Christian Solidarity Worldwide (CSW). Um comunicado divulgado pela fundação de direitos humanos destacou que, “embora alguns relatórios recentes tenham indicado que as tropas eritreias se retiraram de cidades como Axum e Shire, outros detalham violações em andamento, incluindo o assassinato de dois jovens, em Axum, em 3 de Janeiro”.

O documento ainda fala de imagens que circulam na Etiópia com tropas que seriam da Eritreia em ruas de Shire.

“Apelamos à União Africana e ao restante da comunidade internacional para garantir a retirada imediata das tropas eritreias da Etiópia, inclusive formulando e iniciando sanções adicionais direccionadas e um embargo abrangente de armas, se considerado necessário”, disse Khataza Gondwe, líder de equipa para África e Oriente Médio na CSW.

Esforço internacional

As ministras das Relações Exteriores da França, Catherine Colonna, e da Alemanha, Annalena Baerbock, estão na Etiópia para uma visita de dois dias. A implementação do acordo de paz no norte do país africano está na pauta das reuniões.

Na programação foram incluídos encontros com autoridades locais do alto escalão, como o primeiro-ministro, Abiy Ahmed, a Presidente Sahle-Work Zewde e o vice-primeiro-ministro e também ministro das Relações Exteriores da Etiópia, Demeke Mekonen, além de visita à sede da União Africana.

Em um evento na embaixada da França em Adis Abeba, na tarde desta sexta-feira (13), serão assinados dois acordos firmados pela Agência Francesa de Desenvolvimento no valor de 28 milhões de euros para projetos de reconstrução das áreas destruídas durante a guerra no norte do país.

Um deles investirá na reabilitação da rede elétrica em três (das 13) regiões administrativas da Etiópia: Tigray, Amhara e Afar, que acabaram afectadas pelos confrontos. Estima-se que 12 milhões de pessoas nessas zonas sejam beneficiadas pelo investimento. O outro projecto, em parceria com a União Europeia, focará na segurança alimentar, apoiando as atividades agrícolas nas três regiões. Isso deve beneficiar 400 mil agricultores, incluindo mulheres, vítimas do conflito.

A UE já condenou veementemente os abusos cometidos no norte da Etiópia e pediu o acesso das organizações de ajuda humanitárias à região então isolada. O Parlamento Europeu adoptou uma resolução sobre a situação dos direitos humanos no Tigré, considerando o uso da fome como arma de guerra.

As duas ministras europeias vieram para a Etiópia na semana em que o ministro das Relações Exteriores da China, Qin Gang, visita cinco países africanos. No cargo desde Dezembro, Qin Gang também esteve em Adis Abeba nos últimos dias. Gang se encontrou com o primeiro-ministro etíope e também com o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat.

Sem muitos detalhes divulgados, fontes da União Africana disseram que acordos na área de segurança também foram firmados. Em uma conferência de imprensa ao lado de Faki na futura sede do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, sigla em inglês), o ministro chinês defendeu que o continente africano tenha assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, que tem ao todo 15 membros, mas apenas cinco são permanentes e possuem poder de veto: Estados Unidos, Rússia, China, França e Grã-Bretanha. Boa parte dos assuntos discutidos no conselho envolvem o continente africano.

“A África deve ser um grande palco para a cooperação internacional, não uma arena para a competição de grandes países”, afirmou o ministro chinês.

O continente africano tem sido, há anos, o primeiro destino internacional de quem ocupa este cargo na China. A imponente nova sede do CDC está sendo construída pela China, como foi a da União Africana.

Os Estados Unidos também tiveram um papel importante nas conversas sobre o fim da guerra no norte da Etiópia, depois de terem retirado o país africano do AGOA, programa comercial que visa estabelecer laços comerciais mais fortes entre os Estados Unidos e a África Subsaariana. A decisão de Washington foi tomada exactamente por causa das “graves violações dos direitos humanos internacionalmente reconhecidas, perpetradas pelo governo da Etiópia e outras partes em meio ao crescente conflito no norte do país”.

G1

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