Efectivos da Polícia detêm jornalista por entrevistar crianças na rua e alegam “clima de instabilidade” como motivo

A jornalista Sara Kambinga, afecta à organização não-governamental Mosaiko – Instituto para a Cidadania, foi detida, na sexta-feira, 10, por agentes da ordem pública afectos à 4.ª Divisão da Polícia Nacional (PN), sita na Maianga, por ter sido encontrada a entrevistar crianças que trabalham nos arredores.

A profissional recolhia informações junto de crianças sobre trabalho infantil, tema que viria a ser objecto de abordagem radiofónica no dia seguinte, no ‘Programa Construindo Cidadania’, emitido pela Rádio Ecclesia.

Sobre o sucedido, a própria jornalista deixou na sua página do Facebook o seu testemunho a dar conta o que se passou naquele dia.

Ao ser abordada pelos efectivos da PN, foi-lhe informada que a interpelação se deveu a “um ambiente estranho” notado pelos ‘homens da farda azul’, sem que, no entanto, lhe tivessem descrito com precisão de que “ambiente estranho” se tratava. Ainda assim, a jornalista dignou-se a responder-lhes que estava ali em trabalho a entrevistar as crianças. Seguiu-se àquela resposta uma outra sessão de perguntas:

“Está autorizada a fazer entrevista? Mostre a sua documentação, para que órgão?”, questionou um dos efectivos da PN. Em reacção, a jornalista respondeu-lhe que não se via na obrigação de mostrar qualquer documentação, mas, no entanto, acabou por facultá-la à mesma.

“Ok. Percebemos que a senhora é mesmo jornalista, mas dada a situação que o país está a viver, ainda assim, tem de nos acompanhar até à esquadra”, anunciou o mesmo agente que estava no uso da palavra desde o início da abordagem.

“Acompanhar? Qual é o ambiente que o país está a viver? Estou a trabalhar e, até onde sei, fazer entrevista não representa nenhuma ameaça”, retorquiu a jornalista, mas sem qualquer efeito prático, porque, logo a seguir, voltou a ouvir o mesmo agente a insistir que ela teria mesmo assim que acompanhá-los.

“Senhora, nós somos autoridades. A senhora tem de nos obedecer”, sentenciou o agente da polícia.

“Sim, mas, para obedecer, vocês devem me esclarecer o que é que eu fiz!? Até agora não entendi qual é o clima do país”, voltou a retorquir a jornalista, mas o que ouviu como resposta pareceu ser uma ordem sumária: “Senhora, vamos à unidade, é aqui próximo”.

Sara Kambinga conta que ainda pediu aos efectivos da Polícia Nacional que a deixassem concluir o trabalho, mas em vão, porque as crianças, intimidadas, desistiram de contar as suas ‘histórias laborais’ à jornalista ante aquele ambiente policial.

Posta na 4.ª Divisão de Polícia Nacional da Maianga, tendo antes deixado sob alerta, através de um telefonema, a sua advogada de que estava a ser para levada, Sara Kambinga ouviu o agente a anunciar a razão da sua presença naquela unidade policial.

“Chefe, por favor… Encontrámos esta senhora a fazer entrevista. Dada a situação de instabilidade que o país está a viver, resolvemos trazê-la até aqui. Está aqui o documento dela”, anunciou o efectivo da PN, entregando o passe de serviço ao seu responsável.

“Ok, deixa ver… Hummm, muito bem, é jornalista! Então senhora, o que é que aconteceu?”, questionou o responsável policial.

“Eu também não sei, vim saber. Fui encontrada a fazer entrevista e os agentes me interpelaram a dizer que o país está a viver um ambiente que não sei qual…”, respondeu a jornalista.

“Você é jornalista e não sabe qual é o ambiente que o país está a viver?”, questionou, intrigado o responsável policial, acrescentando: “Não sabes que nesta altura das eleições algumas pessoas tentam criar um clima de instabilidade? Nós só estamos a garantir a ordem”.

Perante a declaração do responsável policial, Sara Kambinga rebateu o argumento: “Não, não sei. O que percebo é que a polícia é que está a suscitar um clima de instabilidade que não existe, porque esta actuação da polícia causa insegurança aos cidadãos”.

Como que sentenciando a situação, o responsável policial anunciou que estava tudo bem e que o melhor era esquecer a situação e que estava liberada. Porém, ainda foi a tempo de ouvir uma última recomendação do oficial: “Já podes ir, mas, da próxima, pede permissão”.

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