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África do Sul está a enviar soldados para as ruas. Porquê?

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A morte recente de três pessoas, num ataque de homens armados registado, no bairro de Rocklands, em Mitchells Plain, voltou a atiçar o debate sobre a criminalidade na África do Sul, onde se estima que 64 pessoas sejam assassinadas todos os dias. Em 2024, foram registados mais de 26.000 homicídios.

Mitchells Plain fica na vasta zona de Cape Flats, uma região que há muito enfrenta problemas como a pobreza, a violência de gangues e as elevadas taxas de crime organizado.

“Isto tem sido frequentemente associado ao facto de estarmos entre as sociedades mais desiguais do mundo em termos de distribuição de riqueza, além dos elevados níveis de pobreza e da corrupção policial”, disse Ryan Cummings, diretor de análise da consultora Signal Risk, com sede na Cidade do Cabo.

Pietermaritzburg, Pretória, Joanesburgo, Durban e a Cidade do Cabo são consideradas as cidades mais perigosas na África do Sul.

No mês passado, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, prometeu tomar medidas mais rigorosas contra o crime organizado. O Governo começou a enviar tropas para várias províncias: 550 foram despachados para as ruas – começando por Gauteng, para combater a mineração ilegal e o crime organizado.

Medida polémica
A medida, porém, não é consensual. Uns defendem que as forças armadas são necessárias para lidar com uma crise extraordinária. Outros dizem que os soldados não são treinados para o trabalho policial.

“Em 2019, o Governo trouxe o exército para a Cidade do Cabo”, disse Andy Mashaile, estratega de segurança e antigo embaixador da Interpol, referindo que as mesmas pessoas que pediram o exército foram as mesmas que o expulsaram.

“O exército não está treinado para fazer policiamento”, acrescenta.

O especialista teme que a presença militar apenas obrigue os criminosos a adaptarem-se, mudando de território ou atividade.

Moradores aplaudem decisão
Mas nem todos partilham desta visão. Nos bairros mais afetados, muitos moradores aplaudem a decisão do Governo. Sentem‑se abandonados há anos e acreditam que o exército poderá impor alguma ordem onde a polícia falhou.

“É uma sensação diferente (…) sentimo-nos mais seguros. Espero que haja uma diferença. Espero que eles façam a diferença”, diz um cidadão à DW.

Outro cidadão acrescenta: “Acho que agora vão perceber que os soldados estão aqui. Então, as drogas vão diminuir um pouco, os tiroteios vão parar.”

“Sinto-me inseguro porque não sabemos quando ocorrerá o próximo tiroteio e não sabemos quem será o alvo. Portanto, com a presença do exército e da polícia, posso garantir que me sentirei 100% seguro”, acrescenta outro morador da zona.

Andy Mashaile diz que a solução não está apenas na presença militar.

“Sem operações guiadas por informação de inteligência, nunca venceremos esta guerra contra o crime e o crime organizado transnacional”, diz.

DW ÁFRICA

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